1.12.2016

o dia em que David Bowie morreu

 "Dos vivos, o mais genial. Dos mortos, o mais inesquecível"


David Bowie morreu. Num dia frio de Janeiro, deste lado do hemisfério. 
Janeiro insiste em levar as pessoas de que gosto muito. Janeiro é estranho.
Segunda-feira, não já muito de manhã, no meio de remelas, a luz do telemóvel cegou-me o olho esquerdo. O direito estava fechado. Era cedo para mim, estou de férias. Leio e releio. Leio e receio. Um post da minha mãe no feed do Facebook. A minha mãe partilhou Space Oddity. A minha mãe nunca faz posts no Facebook. Leio e releio. Chego aos jornais a que podemos chamar jornais. É mesmo verdade. 
David Bowie morreu. 
Mas como? Porquê? Ainda há dias comentava com amigos os 69 anos de Bowie. Estava óptimo. Bom comó milho. E tem um álbum novo. Será este ano o concerto? Eu vou. Também vou, quero muito. 
David Bowie simplesmente morreu. 
Senti imediatamente aquela comichão na garganta do choro a chegar. David Bowie morreu e eu chorei muito. 
Achei que não se chorava por alguém a quem nunca dissemos Olá, ou com quem nunca tivemos uma conversa banal sobre o tempo, a quem nunca demos um abraço. Uma espécie de selectividade do choro, relacionada com o grau de proximidade das conversas banais. Chorei por um estranho de 69 anos que nunca vi mais gordo. 
Mas estamos a falar de David Bowie. Um génio que pertenceu a todos nós, porque Bowie dava-nos exactamente o que as diferenças, específicas de cada um, pediam. "Time may change me, but I can't trace time?" Desculpem-me, mas isto foi escrito para mim. Um estranho não escreve músicas para nós. Um estranho não fala connosco como Bowie falava. Como Bowie fala. Um estranho ser camaleónico que, à sua maneira, todos nós queríamos ser. E fomos. E somos, nem que seja por três minutos e trinta e três segundos. 
Eu conhecia Bowie caramba! E foram, são, serão horas e horas de play e pause. Repeat. Eu conhecia Bowie, como conhecia Ziggy, Major Tom, Aladdin Sane. 
Tenho o direito de chorar. Porque conheci Bowie no meu quarto, em horas de viagens, no meio de choros compulsivos e danças frenéticas. Tenho o direito de chorar lágrimas e lágrimas porque o mundo ficou um bocadinho menos brilhante. Desta vez, um bocadinho bem grande. 
No dia em que David Bowie morreu fui ao café depois do almoço. A televisão estridente, quase no fim das notícias. Fechavam com Ziggy Stardust, uma homenagem. Dois senhores na casa dos sessenta e muitos falavam entre eles, Foi o cantor que morreu, dizem que era dos bons. 
E era. David Bowie era dos bons.

David Bowie é dos bons.

4312 Fotografia de Terry O'Neill. 1974

1.10.2016

o caos. a ordem. linhas direitas.

Sempre gostei do caos. Ou melhor, sempre pratiquei o caos. O caos dentro de mim. O caos à minha volta. O caos no meu armário. Debaixo da minha cama. Ou das minhas camas. O caos no meu coração. O caos no meu cérebro, principalmente o caos no meu cérebro. Acredito que há uma beleza inerente ao caos, o caos é belo na sua confusão, nas suas tormentas, nas suas incertezas, nos seus confusos caminhos.
Sempre fui o caos. Se alguém me perguntasse sentado num qualquer divã de veludo vermelho, mas gostas de ser caos? Odeio ser caos, querido divã. Ser o caos significa que o teu coração vai bater desmesuradamente sem que ninguém o acompanhe. Ser o caos significa que vais sonhar mais rápido que a velocidade da luz sem nunca decidires realmente qual é o sonho da tua vida. Ser o caos é não teres tempo a perder mas, na mesma medida, teres todo o tempo do mundo porque decidiste que gostas da palavra procrastinaçao. Ser o caos significa que vais sofrer o dobro, o triplo quando o teu próprio caos decide sair da ordem. Ser o caos é, literalmente, o caos. O caos dos sentimentos, dos pensamentos, das decisões, dos sonhos, de quem és e do que pensas ser.
Não faz mal ser o caos. Mas vai existir um momento nesta caótica aventura de respirar, em que simplesmente tens que parar. Virar a ampulheta ao contrário e deixar a areia cor-de-rosa cair, até ao último grão. Não, não vais deixar de ser o caos depois disso. É essa a tua essência. Mas talvez depois do último grão de areia cor-de-rosa sejas um caos aperfeiçoado, um caos de bem com o próprio caos.

Dou por mim, no meio deste caos imenso, a pensar que gosto da ordem nas minhas fotografias. Sem grandes pretensões, procuro as linhas direitas, um plano centrado ou que faça sentido. Procuro isso como procuro um resquício de ordem no meu caos.
Entretanto, estou por conta da ampulheta da areia cor-de-rosa.


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Roterdão. 
Janeiro, 2016.

12.13.2015

sobre passagens

"Good morning, sister!
Why so sad?
They broke your heart, you fell again
What is it they never let you
Be the one they miss when they're blue
Don't you say you've never been loved
Don't you think you'll never be loved
I hold your hand till the bleeding stops
I hold your hand till you fall apart
And you dream your endless dream

Good morning, brother!
I'm so sad!
They broke my heart, I fell again
What is it they never want me
To be the one that they want to see
And it feels like I've never been loved
And it seems like I'll never be loved
One by one they got you where you are now and you'll be
Further down that road if you don't stop fighting this war
One by one they tear up your heart with their coldness and words
One by one you stop to feel your bleeding knees and heart
And everything that's real

I hold your hand till the bleeding stops
I hold your hand till you fall apart
I hold your hand till you wave goodbye
I hold your hand till Judgment Day
When you dream your endless dream"

Your endless dream,
Letra e música, aqui.

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Sobre passagens. Sobre perdão. E sobretudo, perdoarmo-nos. Perdoarmo-nos bem.

12.11.2015

a repetição, o amor e a arte

"-Todos os bons chapéus são feitos do nada.
-Como todas as boas reputações, Gladys - interrompeu Lord Henry. -Todo o efeito que produzimos dá-nos um inimigo. Para termos popularidade temos de ser medíocres.
-Isso não acontece com as mulheres. -disse a duquesa, abanando a cabeça; -e as mulheres governam o mundo. Garanto-lhe que não suportamos mediocridade. Nós, as mulheres, como diz alguém, amamos com os ouvidos, do mesmo modo que vocês homens amam com os olhos, se é que amam mesmo.
-Parece-me que nunca fazemos outra coisa. -murmurou Dorian.
-Ah, nesse caso, realmente nunca amam, Mr. Gray. - respondeu a duquesa, num arremesso de mágoa.
-Minha querida, Gladys! - exclamou Lord Henry - Como pode dizer isso? Um romance de amor vive da repetição e a repetição converte o apetite em arte. Além disso, cada vez que se ama é a única vez que já se amou. A diferença no objecto do amor não altera a integridade da paixão, só lhe dá mais intensidade. Na melhor das hipóteses, podemos ter na vida apenas uma experiência magnifica, e o segredo está em reproduzir essa experiência tantas vezes quanto possível.
-Mesmo quando ela nos magoou? - perguntou a duquesa, após algum silêncio.
-Especialmente quando nos magoou. - respondeu Lord Henry."


Oscar Wilde
in Retrato de Dorian Gray


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...e apetece-me traçar linhas tortas no céu, repetidamente.

12.09.2015

querido dezembro, estou aqui

As minhas mãos geladas. Uma flor que ainda não é flor, ou uma flor que nunca irá ser flor, não faz mal. As minhas fotografias, um bonito ocaso de dezembro. Quase morri de saudades das coisas bonitas, morre-se lentamente sem as coisas bonitas.

 Olá, meu querido dezembro, estou aqui.



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11.04.2015

não namores uma rapariga que viaja

"She's the one with the messy, unkempt hair colored by the sun. Her skin is now far from fair like it once was. Not even sun kissed. It's burnt with multiple tan lines, wounds and bites here and there. But for every flaw on her skin, she has an interesting story to tell.
Don't date a girl who travels. She is hard to please. The usual dinner-movie date at the mall will suck the life out of her. Her soul craves for new experiences and adventures. She will be unimpressed with your new car and your expensive watch. She would rather climb a rock or jump out of an airplane than hear you brag about it.

Don't date a girl who travels because she will bug you to book a flight every time there's an airline seat sale. She won't party at Republiq. And she will never pay over $100 for Avicii because she knows that one weekend of clubbing is equivalent to one week somewhere far more exciting.

Chances are, she can't hold a steady job. Or she's probably daydreaming about quitting. She doesn't want to keep working her ass off for someone else's dream. She has her own and is working towards it. She is a freelancer. She makes money from designing, writing, photography or something that requires creativity and imagination. Don't waste her time complaining about your boring job.

Don't date a girl who travels. She might have wasted her college degree and switched careers entirely. She is now a dive instructor or a yoga teacher. She's not sure when the next paycheck is coming. But she doesn't work like a robot all day, she goes out and takes what life has to offer and challenges you to do the same.

Don't date a girl who travels for she has chosen a life of uncertainty. She doesn't have a plan or a permanent address. She goes with the flow and follows her heart. She dances to the beat of her own drum. She doesn't wear a watch. Her days are ruled by the sun and the moon. When the waves are calling, life stops and she will be oblivious to everything else for a moment. But she has learned that the most important thing in life isn't surfing.

Don't date a girl who travels as she tends to speak her mind.
She will never try to impress your parents or friends. She knows respect, but isn't afraid to hold a debate about global issues or social responsibility.
She will never need you. She knows how to pitch a tent and screw her own fins without your help. She cooks well and doesn't need you to pay for her meals. She is too independent and wont care whether you travel with her or not. She will forget to check in with you when she arrives at her destination. She's busy living in the present. She talks to strangers. She will meet many interesting, like-minded people from around the world who share her passion and dreams. She will be bored with you.
So never date a girl who travels unless you can keep up with her. And if you unintentionally fall in love with one, don't you dare keep her. Let her go."

Adi Zarsadias


Don't Date a Girl Who Travels from Jonathan Wallace on Vimeo.

10.25.2015

um pouco de tempo parado no tempo

Detalhes deliciosamente gregos e um pouco de sol. Um pouco de sol e um pouco de cor. O desejo de ir, a doce adrenalina do desconhecido. Um pouco de paz e de distância. A ilha trata-nos bem. Um pouco de tempo parado no tempo. 

Assim é bom.
  
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10.06.2015

amor em tempos de chuva

Tão simples como uma viagem de comboio.


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9.29.2015

we were never born

"I have lots of things to teach you now, in case we ever meet, concerning the message that was transmitted to me under a pine tree on a cold winter day. It said that Nothing Ever Happened, so don't worry. It's all like a dream. Everything is ecstasy, inside. We just don't know it because of our thinking-minds. But in our true blissful essence of mind is known that everything is alright forever and forever and forever.
Close your eyes, let your hands and nerve-ends drop, stop breathing for 3 seconds, listen to the silence inside the illusion of the world, and you will remember the lesson you forgot, It is all one vast awakened thing. I call it the golden eternity.
We were never really born, we will never really die. It has nothing to do with the imaginary idea of a personal self, other selves, many selves everywhere: Self is only an idea, a mortal idea.
I know this from staring at mountains months on end. They never show any expression, they are like empty space, but the emptiness of space will never crumble away because it was never born."

Jack Kerouac




De Sergi Castella & Hector Ferreñ.
Kerouac, Cash e Pink Floyd durante quatro minutos.
O céu.

9.27.2015

a fronteira. o riso e o esquecimento.

"Qual a fronteira? A mulher que mais amou no mundo (tinha nessa altura trinta anos) dizia-lhe (ele ficava quase desesperado quando a ouvia dizer isso) que só estava presa à vida por um fio muito ténue. Sim, queria viver, a vida dava-lhe imensa alegria, mas sabia ao mesmo tempo que esse quero viver era tecido com os fios com os fios de uma teia de aranha. Bastava tão pouco, tão infinitamente pouco, para se encontrar do outro lado da fronteira, além da qual mais nada tinha sentido: o amor, as convicções, a fé, a história. Todo o mistério da vida humana se contém no facto de ela se desenrolar na proximidade imediata, e até no contacto directo com essa fronteira. Não está separado por quilómetros, mas apenas por um milímetro."

Milan Kundera,
in O Livro do Riso e do Esquecimento.



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9.24.2015

cartas de Bukowski

December 8th 1986

Hello John:

Thanks for the good letter. I don’t think it hurts, sometimes, to remember where you came from. You know the places where I came from. Even the people who try to write about that or make films about it, they don’t get it right. They call it “9 to 5.” It’s never 9 to 5, there’s no free lunch break at those places, in fact, at many of them in order to keep your job you don’t take lunch. Then there’s OVERTIME and the books never seem to get the overtime right and if you complain about that, there’s another sucker to take your place.

You know my old saying, “Slavery was never abolished, it was only extended to include all the colors.”

And what hurts is the steadily diminishing humanity of those fighting to hold jobs they don’t want but fear the alternative worse. People simply empty out. They are bodies with fearful and obedient minds. The color leaves the eye. The voice becomes ugly. And the body. The hair. The fingernails. The shoes. Everything does.
As a young man I could not believe that people could give their lives over to those conditions. As an old man, I still can’t believe it. What do they do it for? Sex? TV? An automobile on monthly payments? Or children? Children who are just going to do the same things that they did?

Early on, when I was quite young and going from job to job I was foolish enough to sometimes speak to my fellow workers: “Hey, the boss can come in here at any moment and lay all of us off, just like that, don’t you realize that?”
They would just look at me. I was posing something that they didn’t want to enter their minds.
Now in industry, there are vast layoffs (steel mills dead, technical changes in other factors of the work place). They are layed off by the hundreds of thousands and their faces are stunned:

“I put in 35 years…”

“It ain’t right…”

“I don’t know what to do…”

They never pay the slaves enough so they can get free, just enough so they can stay alive and come back to work. I could see all this. Why couldn’t they? I figured the park bench was just as good or being a barfly was just as good. Why not get there first before they put me there? Why wait?
I just wrote in disgust against it all, it was a relief to get the shit out of my system. And now that I’m here, a so-called professional writer, after giving the first 50 years away, I’ve found out that there are other disgusts beyond the system.

I remember once, working as a packer in this lighting fixture company, one of the packers suddenly said: “I’ll never be free!”
One of the bosses was walking by (his name was Morrie) and he let out this delicious cackle of a laugh, enjoying the fact that this fellow was trapped for life.

So, the luck I finally had in getting out of those places, no matter how long it took, has given me a kind of joy, the jolly joy of the miracle. I now write from an old mind and an old body, long beyond the time when most men would ever think of continuing such a thing, but since I started so late I owe it to myself to continue, and when the words begin to falter and I must be helped up stairways and I can no longer tell a bluebird from a paperclip, I still feel that something in me is going to remember (no matter how far I’m gone) how I’ve come through the murder and the mess and the moil, to at least a generous way to die.
To not to have entirely wasted one’s life seems to be a worthy accomplishment, if only for myself.

your boy,

Hank

De Charles Bukowski para John Martin.
Trinta anos depois... a escravidão permanece.


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9.23.2015

os telhados de Praga

Os telhados de Praga ou de Pequim, os telhados de Lisboa ou de Colombo, os telhados de Sidney ou de Varsóvia. Os telhados de vidro, são tantos os telhados  de vidro, os meus, os teus, os nossos. Tão finos, tão ténues, tão quebráveis.


Praga, 2013.


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9.22.2015

olfacto, para que te quero

Cheira a vento e a maresia, cheira a pôr do sol e a lua cheia, cheira a beijos salgados e a cabelos molhados, cheira acasos e a desencontros, cheira a almofadas frescas e a lençóis espalhados, cheira a conversas de meia-noite e a abraços de quarto minguante. Cheira ti, ainda cheira demasiado a ti.
 
 
Siracusa, 2013.


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Acerca de mim

A minha fotografia
O meu nome não é Rita Laranja. E gosto de tirar fotografias. amidnightinbuenosaires@gmail.com