terça-feira, 21 de julho de 2015

prelúdio

"Estas noites estranhas têm entrado pelos dias adentro.
Os olhos cheios de sono, os olhos irritados pelo rímel, pelo eyeliner (tornei-me alérgica à beleza), os olhos vermelhos do pó, do ecrã, do pólen.
Demasiadas noites estranhas umas a seguir às outras. Sou demasiado permeável. Mesmo quando não chove, continua a chover. Se não és tu é outra coisa qualquer.
Irritam-me os telefones - nos filmes como na vida real.
Dói-me o choro dos outros, mesmo o dos desconhecidos, dói-me o meu choro (quando tenho e quando não tenho razões para chorar).
Os amigos novos, os amigos antigos, os amigos novos e os amigos antigos, todos juntos, como se o tempo tivesse deixado de fazer sentido, tivesse deixado de ser linear.
Demasiadas vezes esta sensação de estar a ver a minha vida de fora, demasiadas vezes a pairar sobre o meu corpo, sobre o teu corpo, sobre coisas tão insignificantes como os semáforos ou os cruzamentos. E sentir que tudo é demasiado real. E sentir que nada é suficientemente real.
Ao mesmo tempo."


não faço ideia 
de onde veio.


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terça-feira, 14 de julho de 2015

carta aberta ao desapego

desapego | s. m.
1ª pess. sing. pres. ind. de desapegar

de·sa·pe·go |ê|

substantivo masculino

1. Facilidade em deixar aquilo a que se tinha apego.
2. Indiferença, desinteresse.



Desapego. Desapego. Desapego.
Ainda não chegou o outono e tenho andado a pensar no desapego. Falo no desapego. Falo no desapego como falo de amor. Como se o desapego e o amor fossem duas flores do mesmo caule, da mesma raiz, da mesma terra.
As flores do mesmo caule podem não ser detalhadamente iguais, podem não ter as pétalas igualmente perfeitas, pode até, uma ser mais forte do que a outra. Mas as flores do mesmo caule têm a mesma raiz, o mesmo vaivém de vida, o mesmo nome. Flores do mesmo caule, é assim que decido chamar-lhes. Ou hortênsias, hoje apaixonei-me por hortênsias.
Não, o desapego e o amor não coabitam, não bebem a mesma água, não apanham o mesmo sol de primavera nem aquela chuva miudinha de início de outono.
O amor é uma coisa. O desapego é outra, a muitos caules de distância.
O despego é desamor. O desapego é desafeição. O desapego é fácil. O desapego é a concha mais feia de uma praia deserta de amor, é o abrigo do desabrigo. O desapego é cobarde, o desapego é desinteressante.
O desapego nunca, em tempo algum, pode fazer parte do amor. Não do meu, não dos vossos.
Uma vez uma amiga do coração disse-me Rita, é a saudade que move o amor. Acredito nisto.
Não tenho medo da saudade. O desapego gela-me a alma. Mil dias de saudades, a um segundo desse desapego fácil e indiferente àquilo que um dia foi o nosso regaço.
Seja pelo que for. Pelo facilitismo ou por parecer um lugar mais seguro e confortável do que a saudade, o desapego não, por favor.
Se o amor é para ser, então que seja com tudo. Com os dias feios, as palavras menos bonitas, as horas desencontradas, as saudades infinitas, os quilómetros que mais parecem fitas métricas a apertarem-me o peito, a chuva, a trovoada. Pode até ser com neve, ninguém disse que o amor era fácil.
Acredito no amor como uma perfeita imperfeição. Sublinho imperfeição, porque nada neste mundo é perfeito.Talvez as hortênsias brancas sejam perfeitas, parecem-me perfeitas daqui. Ou talvez não, talvez nem as hortênsias sejam perfeitas, quem sabe se as perfeitas imperfeições não fazem delas ainda mais bonitas. Isso é outra história, uma história de hortênsias, não uma história de amor.
As histórias de amor não se escrevem com desapego. Talvez com hortênsias brancas perfeitamente imperfeitas.
Aposto nisso. E eu nunca resisto a uma boa aposta.



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terça-feira, 7 de julho de 2015

a Catarina

"Mamã, quando for grande quero trabalhar, viver sozinha e ser mãe solteira de um porco."
Catarina, cinco anos.

in A Máquina de Fazer Espanhóis,
de Valter Hugo Mãe.

Gostei da Catarina de imediato.



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domingo, 5 de julho de 2015

vagebond

ócio, para que te quero.

Uma vez li algures qualquer coisa como, "não tenho bem a certeza se quero mais disto, mas certamente que quero um bocadinho daquilo".  
Não há preto nem branco neste frase, é por isso que gosto dela. Não vem carregada de definições e certezas, não trás agarrado o pretensioso bem e o igualmente pretensioso mal.
Repito, não há preto nem branco. Que aborrecido é o preto e o branco, ou o branco no preto. Ou o preto no branco, ou como preferirem dizer. 
É sim como aquelas caixas bonitas de lápis de cor, que cheiram a sonhos e a madeira. Há incertezas que são deliciosas e indefinições que não têm que ser definidas. Há o azul, o amarelo, o verde, o cor-de-laranja e o lilás. Hoje podemos ser vermelho, amanhã talvez sejamos rosa. Porque não?
O tempo, esse, é demasiado curto para que seja tudo branco ou preto. Ou preto no branco. Ou branco no preto. Ou tudo o que não seja aquela caixa de lápis de cor bonita com cheiro a sonhos e a madeira.
Hoje toda eu sou azul e não tenho bem a certeza se quero mais disto. 
Amanhã não sei se serei lilás, mas certamente que vou querer um bocadinho daquilo.




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quarta-feira, 1 de julho de 2015

uma manhã como outra qualquer

 esta é uma não-história de uma manhã
 como outra qualquer

Manhãs de verão, de café, de torradas com manteiga, manhãs de livros e de flores.
Pensamentos profundos à parte, uma manhã como outra qualquer. O sol queima-me as pernas, o gelo derrete com o sumo de toranja, o livro vai a meio, as abelhas e as flores continuam a sua história de amor.
Ponto final. Parágrafo.
Uma manhã como outra qualquer.



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domingo, 28 de junho de 2015

auroras e crepúsculos

Um livro, um bom livro. A luz de fim de tarde que teima em entrar pela minha janela. A minha nova janela.
Faz algum tempo que não te escrevo. Não me perguntes porquê, não teimes em fazer-me perguntas difíceis. Há coisas que não se explicam, assuntos que não se escrutinam, palavras que não se repetem.
Há palavras que não se repetem. Não porque já não façam sentido, não por estarem gastas e velhas, não. Há palavras que não se repetem porque a ampulheta do universo é maior que eu, é maior que tu, acredito que às vezes é maior do que todas as palavras.
Da minha janela vejo uma nova aurora, um novo crepúsculo, uma luz diferente mas igualmente bonita. Sempre gostei das minhas janelas. Sempre gostei de uma luz diferente a entrar pelas minhas janelas. 
O livro, esse não é novo. É o livro de sempre, independentemente das janelas novas, das auroras novas, dos crespúsculos novos, das palavras que não se repetem. É o meu lugar-comum a todos os lugares. Não faz mal, gosto que seja assim.
Quanto às palavras que não se repetem, tal como a minha nova janela, talvez sejam tempos de novas palavras. Tal como a luz a entrar pela minha janela, talvez sejam tempos de palavras diferentes mas igualmente bonitas. E tu sabes... sabes como eu gosto de palavras.

Agora, silêncio por favor. Da minha janela, o crepúsculo diz-me olá. Às vezes é estritamente necessário observarmos em silêncio as coisas verdadeiramente bonitas.



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terça-feira, 31 de março de 2015

Um céu rosa e um rosa céu

Um céu rosa, um rosa céu e meia dúzia de palavras.
Dizes-me como eu gosto de palavras. E eu digo-te como gosto de nuvens cor-de-rosa, nuvens de algodão doce, nuvens pintadas por mãos bonitas e hábeis. Gosto de nuvens brancas e cor-de-rosa. Gosto nuvens de algodão doce mas não gosto de algodão doce sem nuvens. Mas gosto mais de ti, gosto mais de ti do que de nuvens de algodão doce. E também gosto desta equação das nuvens.
Agora, já podemos ir dançar nas nuvens?




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segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

um poema e delicadezas

Nos dias feios deveríamos ler poemas bonitos, olhar delicadamente as delicadezas, escutar o silêncio ou a nossa voz preferida. E talvez com um resquício de sorte, os dias feios fiquem um bocadinho menos feios.



Não tenhas medo, ouve:
É um poema
Um misto de oração e feitiço...
Sem qualquer compromisso,
Ouve-o atentamente,
De coração lavado.
Poderás decora-lo
E rezá-lo
Ao deitar
Ao levantar
Ou nas restantes horas de tristeza.
Na segura certeza
De que mal não te faz.
E pode acontecer que te dê paz...

um poema, Miguel Torga



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quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

a rua das Flores

O Porto é sempre encantador. É um facto consumado, tal como a certeza de que o amor é vida, um pôr-do-sol é sempre especial e os abraços são a melhor coisa deste mundo. O Porto é, sem qualquer dúvida, um encanto em forma de gente, de cor, de sons, de cantos e recantos.
Da última vez, num fim-de-semana de amigas e música, fomos parar à Rua das Flores. Mesmo no centro histórico, esta rua com um nome bonito e recentemente requalificada é o lugar para se estar, só porque sim. As lojas são bonitas e tradicionais, as caixas da electricidade falam connosco, há livrarias deliciosas, encontram os horários dos comboios para o Paraíso e até há livros no céu. E se há livros no céu, como é que uma rua não poderia ser bonita?



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segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

e se?

E se os teus braços são os meus braços?
E se os meu braços são os teus braços?


Esqueçamos a retórica. Os braços das árvores são tão mais simples.


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sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

tens mais medo do amor ou de aranhas?

 (uma conversa sobre aranhas, uma simples conversa sobre aranhas...)


- Sim, mas o medo é uma coisa irracional. Não sabes bem explicar, só sentes... É um bocado como o amor.
- Tens mais medo do amor ou de aranhas?
- Tenho mais medo de tudo, do que do amor. Tenho muito medo da falta de amor! Acho que é do que tenho mais medo.
- E se o amor te magoa mais do que a falta dele?
- Se o vivi, valeu a pena. E nunca nada te pode magoar mais do que o facto de não teres tentado. Mesmo que seja por um segundo, valeu a pena.
- Certo. Disseste a resposta certa. E é por isso que gosto de ti.


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terça-feira, 20 de janeiro de 2015

trezentos e sessenta e cinco dias

Trezentos e sessenta e e cinco dias.
Passaram trezentos e sessenta e cinco dias diz o calendário, perdemos um equinócio, perdemos um solstício, perdemos tantas luas, perdemos uma primavera de abraços e um outono de mimos, perdemos tanto. Tu sabes que perdemos demais.
Passaram trezentos e sessenta e cinco dias e eu sei-os todos de cor. Ainda te sei de cor e vou sempre saber. Vou sempre sentir o teu cheiro doce, vou sempre ouvir em mim a tua gargalhada inesperada, vou fechar os olhos e ver a fotografia perfeita das tuas mãos.
Passaram trezentos e sesseta e cinco dias. Tenho saudades de te sentir, daquelas saudades impossíveis que achei, inocentemente, não existirem.
Existem, sabes? São as minhas saudades tuas de hoje, amanhã, depois e depois.

Trezentos e sessenta e cinco dias e saudades impossíveis. É isto.




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quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

[ 6 on 6 ] inverno

  seis miúdas bonitas, seis fotografias, seis países...


Sejamos sinceros, sejamos todos sinceros. Não gosto do inverno.
Sou dos tempos quentes e do chinelo no pé, sou das esplanadas ao fim da tarde e dos mergulhos no mar, sou do sol e nunca das nuvens.
Ainda assim moro muito longe do verão, "nove meses de inverno, três meses de inferno" é o que se diz por aqui e se a minha avó dizia, devemos areditar.
Tenho o inverno demasiadas vezes à porta para morrer de amores, para ter saudades ou sei lá, apetecer-me dar-lhe um abraço. Não, não me apetece abraçar o inverno mas rendo-me, rendo-me completamente a um céu estrelado de janeiro, a uma manta, um livro e uma chávena de chá a fumegar, ao conforto do sofá e da lareira, aos rosas e vermelhos de um fim de tarde, a uma manhã de neve e uma noite em conchinha. O inverno e os pequenos prazeres, nada mais simples, nada mais fácil. E junho, quando é mesmo?



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 As invernias da Taís (Irlanda), Lolla (Inglaterra), 
Paula (Holanda) e Sarah (Noruega).

Acerca de mim

A minha fotografia
O meu nome não é Rita Laranja. E gosto de tirar fotografias. amidnightinbuenosaires@gmail.com